terça-feira, 4 de setembro de 2012

Projeto Volta Atlântico - etapa 1b - Do Rio a Salvador

No segundo dia de Rio, Gordo e Krebis saíram para um tour pela cidade. Eu e Rodrigo ficamos no clube, preparando o barco para seguir viagem. No fim do dia eles chegaram. Estávamos esperando com um almojanta que terminou já anoitecendo.
Abastecemos de água e diesel e partimos as 19 horas, para uma navegada de 90 milhas até Búzios.
Navegamos por toda a noite e vimos o clarão da cidade e o Cristo no alto do Corcovado ir sumindo na nossa esteira.

Ao amanhecer, passávamos pela ponta do Cabo Frio. Este é um ponto marcante da viagem, pois muda o rumo de andamento e as características de mar, vento e clima. Do Farol de Santa Marta ao de Cabo Frio, nosso litoral faz uma grande curva para dentro e aí temos os elementos natuaris próprios. No cabo Frio encontram-se as correntes submersas frias, vindas da Antartida, e as correntes de superfície quentes, de nordeste, trazidas pelos alísios.

 O dia estava perfeito. Vento, sol, água limpa, e no meio da manhã já nos aproximávamos do destino.

As casas no morro tem uma arquitetura que lembra Garopaba. Pequenas praias e enseadas formam a parte mais nobre do litoral fluminense.

Com 16 horas de navegação, chegamos em frente ao Iate Clube de Búzios. Lá estavam umas 10 máquinas de regata. Participavam de uma competiçao de classe, mas neste dia só vimos as equipes em treinamento.

Os três saíram de bote, paramentados para um mergulho. Rodrigo levou o arbalete, prometendo um peixe para o jantar, mas só trouxeram mariscos da pedra, que foram direto para a panela.
Jantamos e decidimos partir para Abrolhos. Um perna longa de 190 milhas.

Este trecho requer muita atenção pois aí se encontram mais de 100 plataformas de petróleo, algumas bem próximas da costa. Isto gera um grande trânsito de embarcações. Por toda a noite avistamos muitas luzes e isto tornou a navegação bastante tensa.
Passamos pelo cabo de São Thomé. Mais um marco da nossa costa, por onde deve-se passar bem longe, dado aos baixios e correntes.
Navegamos ainda por todo o dia, vendo baleias por todo o lado, e mais uma noite.

Pela manhã passávamos já pela frente da bela Vitória do Espírito Santo...

e para variar com a chuva se anunciando, como no Rio.

Depois de 36 horas de viagem entrávamos no Iate Clube de Vitória, onde atracamos no pier e dormimos até quase meio-dia...

quando saímos para uma caminhada, almoçar e levar as roupas sujas para uma lavanderia.
Teitei encontrar um prédio que em 2010 vi em obra e me chamara muito atenção, mas não o encontrei.

No fim da tarde, nos encontramos no clube e o Gordo havia passado pelo prédio e fotografado. È realmente um colosso. Pelo que soube pertence a Petrobrás.

No dia seguinte, abastecemos e partimos para Abrolhos. Passamos por dois veleiros de bandeira suiça, com um casal cada, na faixa dos 60 anos. Tem muitos europeus na nossa costa.

Vitória ia ficando para trás. Dia tranquilo, mas acinzentado. Mais 180 milhas pela frente, mas a tripulação já entrara no rítmo.

Logo cedo o Krebis pega uma serrinha, peixe da família da cavala. O Rodrigo mostra sua habilidade de "manezinho da ilha" e rapidamente ...

transforma em postas. Pena que é um pouco pequena para o almoço de quatro.

Pouco depois a caretilha canta novamente. Agora um dourado. Estava completo o almoço.

Parte do dourado já se tranformou em sashimi e foi a entrada...

e eu fui para a cozinha e preparei uma moqueca com arroz Rariz.

E tava bom!
Navegamos por toda a noite, mais o dia seguinte. O vento foi aumentando e as 23 horas chegávamos no abrigo da ilha de Santa Bárbara, principal ilha de Abrolhos, com chuva e vento forte. A única coisa que se via era a luz do farol. Nestas horas o gps map é uma tranquilidade. Tem-se a exata noção de onde se está, mesmo sem nada enxergar.

Só no amanhecer pudemos constatar que o gps estava realmente certo.
Um lindo dia, mas o vento zunia em rajadas.

Dois outros veleiros amanheceram no abrigo da ilha. Não sei se chegaram depois ou já estavam lá e não os vimos.

Batemos um rádio para o farol e conseguimos a previsão do tempo. Má notícia! O vento só aumenta nos próximos 3 dias.

Moral da história, decidimos partir imediatamente sem descer nas ilhas, como previsto.

O barco avançava rápido, mas bem adernado. Rodrigo prepara o almoço calçado na mobília.
Agora serão 190 milhas até Ilhéus. Já estávamos adiantados na nossa agenda prevista.

Aproveitamos a velocidade e a água limpa para lavar os panos de prato. Dez horas no reboque e saem limpinhos.
Neste trecho tivemos a exibição de uma baleia que saltou muito próximo do barco.

O Krebis estava coincidentemente filmando e a baleia saltou duas vezes diante da câmara.


 Foi emocionante. O vídeo pode ser visto no http://www.youtube.com/watch?v=z92piu7VMRA.

Ao anoitecer da segunda noite, pegamos mais uma cavala, agora uma senhora cavala, com 90cm de comprimento.
Exaustos e com chuva, a 1:00 da manhã dobramos o molhe do porto, mas não encontramos a entrada para o clube. A noite era muito escura e para evitar riscos ancoramos no meio da enseada.
Desmaiamos.

No dia seguinte nos encontramos. Rumamos para o Iate Clube, que ficava por tráz de várias embarcações de pesca apoitadas.

Seguimos para lá...

e ancoramos a uns 60 metros do pier, pois a maré estava variando muito.

Levamos nosso peixe, pratos, sal e limão, alguns legumes, e fomos para uma churrasqueira do clube, e de frente para o mar...

preparamos nosso almoço, regado com caipirinha e cerveja, compradas na cantina no clube.

Que mordomia! acho que estou gostando desta vidinha de aposentado.

Este era o visual...

e aqui o local da sesta.
Liguei para Renise para conferir se estava trabalhando (Brincadeirinha).

A tarde saímos para passear pelo centro de Ilhéus. Cidade histórica do período do Cacau.
Terra de Jorge Amado e cenário de seus romances.

O fotógrafo na praça e a arquitetura preservada mantém viva esta memória.

A igreja, o bar Vesúvio do Nacif, e o Bataklam. Tudo está lá e é real.

No fim do dia voltamos e junto do Firulete estava o Odin´s Toy, do Miguel, o gringo que háviamos conhecido em Vitória.

Mas o Firulete já estava impaciente, louco para zarpar novamente.
No amanhecer partimos para o Morro de São Paulo, agora uma navegada mais curta. 90 milhas...

que tiramos de letra.

Navegada tranquila, com vento de través. Andávamos a 5 nós, só com a vela mestra.

No fim do dia um peixe...


e no anoitecer, outro.

Chegamos no abrigo do Morro de São Paulo já pela madrugada, e acordamos com este visual.

Os três saíram para um reconhecimento da ilha e sua orla e eu fiquei dando uma geral no barco.

Quando voltaram, fizeram filés dos peixes pegos...

que preparei com alcaparras e risoto de legumes. As 19 horas adernamos numa sesta e emendamos. As 23 horas acordei com o celular. Desliguei as luzes e o som e ninguém nem viu.

Acordamos as 6:30 e decidimos curtir mais um dia por aqui. As pranchas finalmente iriam sair das capas.

Os dois surfistas partiram...

a nado, enquanto eu e Rodrigo fomos de bote.

A vila é muito simpática, exótica, e recebe muito bem os turistas, que são principalmente jovens, muitos estrangeiros.

As praias são cheias de recifes que afloram na maré baixa e formam enormes piscinas.

Muita gente bonita na praia...

e mulas que fazem o transporte na ilha, aliás aqui não tem carros, e motos e bicicletas são proibidas. É tudo a pé. Além das mulas, muitos carregadores com carrinhos de mão prestam serviços.

No dia seguinte, partimos cedo para Salvador. Parte da tripulação estava de ressaca, pois saíram a noite.

Navegada de apenas 40 milhas. Tranquila, com vento de través.

A tripulação acordou finalmente...

e curtiram o final da velejada.

As 14 horas chegamos no Centro Náutico da Bahía...

Atracamos no pier, de frente para o elevador Lacerda, que dá acesso ao Pelourinho.

A noite, um brinde pelo feito. Foi corrido, mas chegamos em Salvador exatamente no tempo planejado. Krebis e Gordo voltariam em 3 dias.

Era sábado. Aproveitamos para curtir o Pelourinho. Na praça, roda de samba...

e de capoeira.

Num pátio, samba raíz, tocado por uma velha guarda bem velha.
Esta cidade é tocada a música, e cerveja... muita cerveja.

Voltamos para o barco felizes e cansados.

Domingo é dia de descansar...

e passear. Gordo e Krebis pegaram o onibus e foram surfar...

onde encontraram nativos...

e baianas na praia.

Chegaram até a praia de Itapuã.

No dia seguinte, apesar de segunda feira, um city tour.

Sede da Marinha, com espelho d´água em fente.

Farol da Barra, que marca o início da Baía de Todos os Santos, e divide a orla em duas.

Fomos ao Mercado do Peixe e compramos 2 lagostas...

 e 2 polvos e preparamos um jantar de despedida para os meninos, que amanhã tomam o avião.

O dia amanheceu lindo na marina...

pena que os dois etejam indo embora.

Fomos para a internet para colocar em dia a nossa vida virtual.

No meio da tarde, voltam nossos hóspedes. Erraram o dia da passagem. Ganharam mais um dia de Bahía, mas sem direito a novo jantar de despedida.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Projeto Volta Atlântico - etapa 1a - De Floripa ao Rio

Finalmente consegui resgatar nosso blog de 2010. Me desculpem os que ficaram aguardando por notícias mas o forte rítmo da viagem até aqui, as dificuldades com o acesso a internet por onde passamos e as barberagens que cometo na relação com esta tecnologia atrasaram a primeira postagem.

Estamos já em Salvador e este é nosso trigésimo dia de viagem.
Depois de dois anos de planejamento para esta empreitada de fazer a Volta Atlântico, depois de tres meses de reforma e preparação do barco, com ele no seco, depois de estruturar o escritório para uma ausência de 12 a 18 meses, estamos navegando novamente.

Confesso que não é fácil fazer-se ao mar, quando tudo que plantamos e construímos está em terra. Deixar mulher, filhos, netos, casa, escritório, amigos, é pesado. Saí com um peso enorme no coração e passei as duas primeiras semanas com uma sensação de estar cometendo um erro.
Depois, fui absorvendo a nova rotina, procurando ficar focado no momento e procurando esquecer aquela angûstia de tirar conclusões ou fazer balanço de vida, afinal não estou pretendendo nenhuma guinada, minha vida foi muito boa até agora e pretendo retoma-la com tudo e todos que me cercaram até então.
A única diferença é que, ao voltar, vou ter experimentado um sonho que não gostaria de abortar. Poderá ser uma bela historia para contar para os netos, poderei passar por dificuldades que não esquecerei jamais, mas com certeza, voltarei com uma boa bagagem de experiência, com vivências muito ricas, com amigos que jamais encontraria, mas também com muitas saudades da mulher, da família e com uma grande vontade de curti-los e, quem sabe, sabendo ser sossegado.
Esta introdução, que fiz toda na primeira pessoa, não reflete o espírito do blog, que pretende ser mais coletivo e representar sentimentos e experiências de toda a tripulação, que aliás vai trocando a cada trecho, mas senti necessidade de expressa-la.

Fizeram parte desta etapa 1 (Floripa-Salvador): Rodrigo, que já me acompanhou nos 4 meses de navegação em 2010, e pretende fazer todo o percurso agora planejado; Augusto, meu filho que me deixou muito feliz por estar participando, apesar de estar apaixonado e o Krebis, seu amigo, que se mostrou um bom companheiro. Tivemos muitos bons momentos e alguns perrengues.

Saímos com chuva. Encarei isto como um bom presságio. Renise (minha mulher) foi sempre muito compeensiva para com este projeto, apesar de ficar tanto tempo sozinha. Vou sempre agradece-la por isso

 As filhas também estavam presentes na despedida.

A tripulação, o pai de Rodrigo e meu filho Jerônimo (querendo partir junto).

A primeira noite foi pesada. Nos revesamos 2 a 2 nos turnos. Mar grande, vento sul com rajadas chegando a 25 nós. Como não tivemos tempo de testar o barco, depois da reforma, preferí fazer um rumo mais pela costa, ao invés de ir direto para Ilha Grande, como planejado.

Depois de 24 horas de uma viagem dura, onde o vento e a chuva não deram trégua, decidimos rumar para o abrigo da Ilha do Bom Abrigo, já no sul do litoral paulista, na altura de Cananéia. Lá chegamos as 23 horas exaustos e caímos na cama. No primeiro dia nem fotos batemos, tal foi a pauleira. O piloto automático não funcionou, exigindo durante as 30 horas o revesamento na pilotagem. Acordamos no abrigo da ilha, junto com mais uns 10 pesqueiros. Até as aves marinhas procuravam o abrigo.

Ao amarrar uma bambona vazia no convés, a deixei cair no mar. Krebis rapidamente se jogou para apanha-la, mas o vento e a corrente eram fortes e acabou se afastando muito. Foi resgatado por um barco pesqueiro que agiu rápido, percebendo que ele não conseguiria voltar.
O dia continuou com chuva e o vento uivava lá fora. Passamos o dia sem coragem para encarar o mar.


O Augusto no primeiro dia, já conseguiu sua marca de estreante, um hematoma na testa por ter dado uma cabeçada na porta do armário.

Ao anoitecer do 2º dia, com um indício de o vento estar reduzindo, resolvemos partir rumo a Ilhabela.
Navegamos por toda a noite e no dia seguinte o céu começava a limpar, mas o vento rodou e agora vinha de leste. Exatamente na cara, e a ondulação era grande de sul.

Mas as coisas começavam a normalizar. O Krebis, que foi armado até os dentes para pescar, começou a experimentar suas iscas.

Já o Gordo mostrou que seria o responsável pelos registros fotográficos.

O Firulete começava a exibir seus panos e o astral a bordo começava a melhorar.

O Krebis teve seu batismo no banho de reboque.

Mas com o vento contra rendíamos pouco. No fim da tarde estávamos passando pela frente de Santos quando decidi mudar os planos e ir para lá. Nunca tinha entrado em Santos mas conhecia a fama do melhor lugar para se resolver problemas náuticos, e alí teríamos a chance de recuperar o nosso quinto tripulante - o piloto automático.

Entramos na barra já a noite, depois de ter passado por mais de 100 navios que aguardavam ao largo para entrar no porto. Ancoramos numa pequena enseada para dormir. Ao amanhecer rumamos para o canal onde haviam marinas e prestadores de serviços.

 Paramos na marina Pier 26, a contrabordo do veleiro Raiatea que passava por reforma e...

com muitos vizinhos de porte. Inclusive o Nanuk, todo em alumínio, que tambem vai para a Refeno.

O dia foi de muito trabalho (como podem ver). Conheci o Dieter, um suiço que trabalha em Santos com eletrônicos. Analisou o piloto e não conseguiu diagnosticar o problema mas tinha um equipamento igual e me emprestou para seguir a viagem, ficando de arrumar o meu para trocarmos via Sedex. Foi uma sorte tão grande que...

comemoramos a noite com uma pizza teleentrega a bordo.

No dia seguinte, cedo fui buscar duas bambonas de diesel para então partirmos.

Na saída, uma foto com o casal do Raiatea, que acabamos fazendo amizade. Estão preparando o barco para irem morar em Angra dos Reis. Ela é arquiteta. O senhor de camisa azul, que trabalhava no Raiatea, é Zé do Mastro, trabalhou na Fast e montou todos os Fast 345, inclusive o Firulete. Nos falou de detalhes construtivos e nos ajudou na vedação da enora (acabameno entre mastro e convés), problema que vinhamos enfrentando com a chuva desde a saída.

As 14 horas saímos de Santos rumo a Ilhabela. Lá chegamos as 2 horas da manhã, tomamos uma poita do Iate Clube e caímos cansados.

Amanhecemos de frente para a bela ilha. Realmente faz jus ao nome e o dia estava perfeito.
Só que estamos dois dias atrasados em relação a nossa agenda. Nosso compromisso é com as passagens dos dois tripulantes que desembarcam em Salvador.

Mesmo assim fomos dar um breve passeio pela vila...

...ums curtidinha na bela marina, que sempre recebe muito bem os navegantes...

e tem uma das melhores infraestruturas do nosso litoral.

No início da tarde partimos com pesar, principalmente porque Gordo e Krebis não conheciam Ilhabela.

Passamos ao lado do Paratii II, barco do Amir Klink, que lá estava ancorado. Um colosso de 100 pés, todo em alumínio.

O dia está perfeito para navegar...

com vento e todo o pano em cima.

No lanche do convés, ninguém mais lembra da pauleira dos primeiros dias.

A Serra do Mar vai se desdobrando por bombordo...

e o dia, ao final, vai trocando de cor rapidamente...

e se encerra num por do sol de cinema.

Nossa previsão era pararmos em Lopes Mendes - Ilha Grande, mas como passamos por lá de madrugada, o andamento estava muito bom, tínhamos uma previsão de frente fria e ainda estávamos atrasados, decidimos tocar direto para o Rio de Janeiro.

No meio da manhã já podíamos perceber a silhueta das suas montanhas.

 Na chegada, fizemos uma aproximação da pedra do Arpoador...

para o Rodrigo tentar arpoar o almoço.

Sem peixe, tocamos para o abrigo da baía de Guanabara, pois o tempo começava a se fechar.

Como sempre acontece nas aproximações de terra, Rodrigo vai para o celular e fala com meio mundo.

Já dentro da baía o céu desabou sobre nós. Entrou a anunciada frente fria, mas já nos aproximávamos do Iate Clube do Rio de Janeiro, na Urca.

Atracamos no pier, para as formalidades de entrada e fomos para uma poita.

Apesar do cansaço, saímos para uma caminhada por Copacabana.

Caminhamos até anoitecer, parando em Ipanema. Tomamos um taxi e fomos encerrar a noite na Lapa, no Bar da Boa.